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Frio nos EUA – Aspectos históricos e implicações no clima local

Mais um EXCELENTE texto dos amigos da MetSul Meteorologia, assinado pelo Mestre e amigo, o meteorologista Eugênio Hackbart, com produção técnica do amigão Alexandre Aguiar,  Diretor de Comunicação e sócio da MetSul.

O texto sintetiza os aspectos históricos e científico/meteorológicos da onda de frio nos EUA e faz uma ponte com o que podemos esperar do nosso inverno de 2014.

Abraços e boa leitura, pois vale muito a pena!!

Segue o texto na íntegra que também está disponível nos site da MetSul: http://www.metsul.com/blog2012

Os Estados Unidos enfrentaram na última semana uma brutal onda de frio. Muito se disse sobre a onda gelada e suas consequência, mas no noticiário geral não se viu profundidade sobre as suas causas, o padrão de circulação atmosférica que a desencadeou e como este episódio se insere na climatologia local e no contexto geral das mudanças climáticas. De início, foi uma expressiva onda de frio que de forma alguma pode ser reduzida. Grandes áreas dos Estados Unidos experimentaram suas menores mínimas em quase duas décadas. Não fazia tamanho frio desde a metade da década de 90 em diversos estados.

A temperatura caiu a 26ºC abaixo de zero na terça (7) na cidade de Detroit, em Michigan. A sensação térmica baixou a 41ºC negativos. Foi o 16º dia mais frio já registrado em toda a história a cidade. Em Saint Louis, no Missouri, a mínima na segunda-feira (6) de 22ºC abaixo de zero foi a mais baixa na cidade desde os 24ºC negativos de 3 de fevereiro de 1996 e a primeira “subzero” (negativa em Fahrenheit ou inferior a -17,7ºC) desde o dia 5 de janeiro de 1999. A máxima de apenas 16,6ºC abaixo de zero foi a menor desde 2 de janeiro de 1994. Em Indianápolis, Indiana, a mínima de 26,1ºC negativos na segunda-feira (6) foi a menor desde o recorde de mínima absoluta de 32,7ºC abaixo de zero no dia 19 de janeiro de 1994.

Em Milwaukee, Wisconsin, a mínima de 25ºC abaixo de zero no dia 7 foi a menor desde os 26,1ºC negativos de 5 de janeiro de 1999. Na Capital Washington, a mínima de 14,4ºC abaixo de zero na terça foi a menor na cidade desde 5 de fevereiro de 1995. Já na cidade de Nova York, a mínima no Central Park de 15ºC negativos foi recorde diário para 7 de janeiro desde o início das medições em 1869, batendo o recorde anterior para a data de 14,4ºC abaixo de zero em 1896.

O frio em Chicago foi extraordinário. A mínima foi de 23,9ºC abaixo de zero no dia 7 na estação oficial do Aeroporto de O’Hare, recorde diário. A máxima no dia foi de 18,3ºC negativos. O frio foi tão extremo na cidade do estado de Illinois que até o escritório local do Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos passou a usar em suas redes sociais a expressão “Chiberia”, em alusão à Chicago e Sibéria, o que por óbvio acabou ficando popular a ponto de ganhar as capas dos jornais.

A temperatura ao meio-dia no dia 7 em Chicago era de 25,5ºC negativos, sétima menor já anotada no horário desde o começo das observações meteorológicas em 1871. O recorde ao meio-dia é de 29,4ºC negativos em 10 de janeiro de 1982. O Rio Chicago, que cruza o Loop (Downtown) congelou e grandes blocos de gelo podiam ser vistos às margens do Lago Michigan.

A onda gelada nos Estados Unidos da semana passada fez com que os Grandes Lagos atingissem sua maior cobertura de gelo em duas décadas, de acordo com dados de órgão de monitoramento do Canadá. A cobertura nos Lagos Superior, Michigan, Huron, Erie e Ontário aumentou de 12% para 26% em apenas uma semana, atingindo níveis não observados nesta época do ano desde a grande onda de frio de janeiro de 1994. O Lago Erie atingiu impressionantes 90% de sua extensão congelada.

Interessante é verificar o porquê de ter feito tanto frio. Fenômeno conhecido há décadas pela Meteorologia, o chamado vórtice polar se tornou popular na última semana pela sua frequente citação durante o noticiário da onda de frio nos Estados Unidos. Os americanos foram inundados na mídia pelo “polar vortex” e do dia para a noite termo desconhecido do público se tornou popular. Mas, afinal, o que é esse fenômeno que tanta atenção mereceu durante a cobertura da intensa onda de frio?

É um sistema de baixa pressão (logo ciclônico) persistente e de grande escala em altos níveis da atmosfera que atua nos dois polos do planeta. Enfraquece no verão e fica mais forte no inverno. Não é algo novo que tenha surgido recentemente, não está na superfície, não é visível como as nuvens e não traz perigo para as pessoas, exceto pelo frio extremo ao qual está associado. Às vezes se desprende da região polar (posição mais normal na América do Norte é na Baía de Hudson) e avança para latitudes menores. Foi exatamente o que se deu na semana passada, quando atuou sobre a região dos Grandes Lagos, no Norte dos Estados Unidos e na porção sul do Canadá.

Se o termo vórtice polar é novidade para a esmagadora maioria das pessoas, mesmo nos Estados Unidos, onde a população possui cultura meteorológica acima da média, não é para o leitor da MetSul. O termo já frequentou recentemente nossas análises aqui para o Sul do Brasil (abaixo). Na forte onda de frio que trouxe neve em julho passado para nós, também um vórtice polar foi decisivo para o gelo. Ele deixou a área ao redor do Centro da Antártida, onde costuma atuar, e se aproximou da província meridional argentina da Terra do Fogo, o que proporcionou a forte incursão de ar bastante gelado no Cone Sul.

Por óbvio, este episódio de frio extremo acabou por desencadear uma polêmica enorme na comunidade climática americana. Os aquecimentistas dizendo que é uma prova cabal do aquecimento global e os céticos dizendo que é prova que o aquecimento é uma farsa. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. A ciência ainda não tem exata compreensão que está por trás de comportamentos anômalos de correntes de jato no Hemisfério Norte que levam bolsões de ar extremamente gelado em latitudes médias. A questão da chamada “amplificação ártica” é por demais intrincada. O aquecimento do Ártico, conforme alguns, levaria a eventos mais extremos de frio, mas são os mesmos que dizem que o número de dias de frio extremo diminuiu por conta do aquecimento do planeta. Fato é que eventos de frio extremo parecem estar claramente relacionados a súbitos eventos de aquecimento estratosférico polar e ao comportamento de oscilações como NAO (North Atlantic Oscillation – Oscilação do Atlântico Norte) AO (Artic Oscillation – Oscilação Ártica), no Ártico e no Atlântico Norte, com favorecimento de eventos de frio extremo em suas fases negativas. Veja no mapa abaixo de circulação de vento em altitude na América do Norte da última segunda-feira (6) como o padrão de circulação dá uma grande cavada de Norte para Sul justamente sobre o Meio-Oeste e a Metade Leste dos Estados Unidos, indicando a presença do vórtice polar.

A questão é tão complexa e intrincada que o comportamento meramente das oscilações intrasazonais não responde bem ao que ocorreu recentemente na América do Norte. Quando da sua fase negativa, elas favorecem incursões de ar muito gelado nos Estados Unidos, mas também na Europa Ocidental. Só que enquanto os norte-americanos congelavam, a temperatura se manteve acima da média na maior parte do continente europeu.

O que chama a atenção neste começo de ano no Atlântico Norte é o padrão de circulação de vento em altitude. A corrente de jato está muito ativa e seu posicionamento tem feito que o Oeste da Europa esteja experimentando um inverno por demais tempestuoso. Por conta do jato, o mesmo centro de baixa pressão que atuou no Nordeste dos Estados Unidos entre os dias 2 e 3 de janeiro com nevascas no território americano, cruzou nos dias seguintes o Atlântico, seguindo a corrente de jato, intensificando-se muito e provocando um violento temporal de chuva e vento na Inglaterra e outros países europeus (foto abaixo). É o inverno mais tempestuoso, por exemplo, na Grã Bretanha das últimas duas décadas, de acordo com o Met Office.

Pergunta reiterada nos últimos dias é se o evento de frio extremo nos Estados Unidos é um sinal de que nosso próximo inverno no Rio Grande do Sul será rigoroso. Já se ouviu até opiniões na mídia a respeito, diga-se apressadas. Primeiro, foi um episódio apenas de frio extremo e um evento não conta a história de uma estação toda. Tempo não é clima, é parte dele. Tanto que aqueceu rapidamente depois dos dias gelados nos Estados Unidos. Segundo, as condições oceânicas globais de hoje podem ser muito diferentes no próximo inverno. Terceiro, padrões podem se repetir (teleconexão), mas não existe replay. Aliás, a esmagadora maioria dos modelos de clima (abaixo) sinaliza inverno mais quente que a média no Rio Grande do Sul.

O que chama atenção neste começo de ano e pode ter repercussões em nosso inverno é sim a cobertura de gelo marítimo na Antártida. Esta se encontra em níveis máximos históricos desde o início das medições por satélite em 1979. Temos observado ao longo dos anos uma maior propensão para episódios de frio intenso em anos em que a cobertura de gelo no Polo Sul é muito alta. Por fim, impossível deixar de atestar uma coincidência. Em muitos locais dos Estados Unidos, foi o mais significativo evento de frio desde 1994 e o nosso último inverno no Rio Grande do Sul foi o com mais neve desde 1994. Alguma relação? Tema para uma próxima e instigante pesquisa. (Produção de Alexandre Aguiar com reproduções do NOAA, Earth, Universidade do Maine, MESONET e jornais americanos).

FONTE: http://www.metsul.com/blog2012

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Agosto de 2013 foi o mais frio em décadas em parte do Estado do RS

Excelente artigo do Prof. Eugênio Hackbart publicado no site da Metsul Meteorologia. Vale a leitura, pois elucida, com muitos dados e informações, os aspectos da climatologia do meu mês (hehehe) desse ano frio.

Por Eugênio Hackbart

Agosto em 2012 foi bizarro pelo calor no Rio Grande do Sul. O agosto mais quente em um século no Estado (leia mais detalhes). Cidades tiveram médias máximas até 6ºC acima do normal, algo verdadeiramente absurdo. Neste ano, o oposto. Gelo ! Encruzilhada do Sul, em agosto do ano passado, teve média máxima 6,2ºC acima da normal histórica, mas neste ano 2,0ºC abaixo da média. Campo Bom terminou agosto de 2012 com desvio positivo nas máximas de 4,9ºC, mas em 2013 o mês fechou com anomalia negativa nas máximas de -1,6ºC. Em Santa Maria, ainda no tocante às médias máximas, teve em agosto de 2012 uma anomalia positiva de 4,5ºC, mas em 2013 esta foi negativa em -1,9ºC. Nas Missões, São Luiz Gonzaga em agosto do ano passado registrou média máxima 3,6ºC acima da média histórica 1961-1990 e neste ano 2,0ºC abaixo. Na Campanha, Bagé apresentou anomalia positiva de 2,7ºC em 2012 e neste ano uma negativa de -3,2ºC nas médias máximas.

Foram 16 dias com marcas à tarde acima de 30ºC em Campo Bom em agosto de 2012. Em 2013, só 4. Santa Maria em agosto do ano passado registrou 7 dias com máximas iguais ou superiores a 30ºC, mas neste ano apenas 1. No tocante às mínimas, Bagé anotou 8 dias com marcas de 10ºC ou menos em agosto de 2012 em sua estação convencional, mas em agosto de 2013 foram 23 ! Na convencional de Porto Alegre, no Jardim Botânico, foram só dois dias de mínimas de um dígito em agosto de 2012. Neste ano, foram 15 ! Detalhe. A menor marca no Jardim Botânico em agosto de 2012 no Jardim Botânico foi de 7,3ºC no dia 6. Este valor é superior à temperatura que se tinha na mesma área na segunda metade da tarde do dia 23 este ano.

A cidade de Santa Maria teve 5 dias de agosto em 2012 com marcas mínimas de um dígito (abaixo de 10ºC), mas nada menos que 19 dias neste ano. No gráfico abaixo do NOAA com as anomalias diárias de temperatura dos últimos 90 dias para a cidade do Centro do Estado nota-se como houve longos períodos de temperatura abaixo a muito abaixo da média em agosto de 2013.

Foi o agosto mais frio em décadas em algumas cidades. Com média mensal composta de 13,1ºC, 2013 teve o agosto mais frio em Campo Bom desde o início dos registros em 1984. Caxias do Sul anotou média mensal de 11,9ºC (0,8ºC abaixo da normal histórica), igualando 2003. Em Bom Jesus, a média de agosto foi 10,7ºC (0,7ºC abaixo), menor para o mês desde 2003. Passo Fundo com média de 12,1ºC (-1,9ºC) e Porto Alegre com 13,8ºC (-1,5ºC) tiveram o agosto mais frio desde 1984, ano em que agosto reservou a neve para a Capital. Santa Maria com média mensal de 13,0ºC (-1,6ºC) e São Luiz Gonzaga com 13,7ºC (-2,2ºC) experimentaram o agosto mais frio desde 1973 ! Encruzilhada com média de 11,9ºC (-0,8ºC em relação à normal), Bagé com 11,0ºC (-2,3ºC) e Santa Vitória com 10,8ºC (-1,2ºC) registraram o agosto mais frio desde 2007, ano de inverno rigoroso que teve frio intenso muito tardio em novembro e a grande nevada em Buenos Aires (maior desde 1918) em julho.

Agosto mais frio em décadas no Estado trouxe também a maior nevada desde julho de 1994 – Foto do Exército Brasileiro

A possibilidade de agosto ser muito frio neste ano estava no nosso terreno de previsão desde o fim do verão e o começo de agosto. Clientes da MetSul eram informados em boletins ainda em abril que em 2013 o oitavo mês do ano poderia ser radicalmente distinto de 2012, considerando a tendência histórica de extremos se inverterem de um ano para outro e ante o padrão que se observava no final do inverno nos Estados Unidos. Em 2012, março, tal como foi agosto para nós, foi histórico pelas enormes anomalias positivas do Centro para o Leste nos Estados Unidos. E, neste ano, deu-se exatamente o contrário com marcas muito abaixo da média na região norte-americana. Já na Inglaterra, março neste ano foi o mais frio desde 1962.

O Oceano Pacífico não foi o único contribuinte dentro do complexo sistema climático para um agosto com muito frio neste ano no Rio Grande do Sul, mas teve impacto bastante relevante, de acordo com a nossa análise. Em 2012, nos três meses antecedentes ao agosto mais quente em um século aqui no Estado, a região do Pacífico Leste esteve todo o tempo com anomalias semanais positivas de temperatura da superfície do mar (TSM) com valores tão altos quanto +1,7ºC na semana de 20 de junho. Já em 2013 ocorreu o contrário. Os três meses antecedentes ao agosto gelado tiveram anomalias de TSM persistentemente muito negativas na mesma área do Pacífico Leste com marcas de até -2,1ºC no final de maio, as maiores anomalias negativas para o período nesta parte do Pacífico em, pelo menos, 20 anos. (Com apoio e agradecimento ao setor de banco de dados do Oitavo Distrito de Meteorologia, produção de Alexandre Aguiar e mapas do Cptec/Inpe e NOAA)

Fonte: http://www.metsul.com/blog2012

Abraços

Dakir Larara


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Frio… Muito frio nos próximos dias!!

Olhem essa… É brincadeira ou querem mais!?!?!?

Abraços

Dakir Larara