Blog do Daka

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What’s Up Africa

Ikenna Azuike decidiu criar o videocast What´s Up Africa para mostrar o que tem de mais legal no continente, com foco em publicidade e cultura. A idéia surgiu como uma forma de combater os clichês do continente.

Virei fã.

via African Digital Art

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O Mapeamento da Biodiversidade

Por Cláudia Stefani

Biblioteca da vida 

Mapear a biodiversidade mundial é um dos maiores desafios da ciência. Afinal, o homem conhece mais estrelas no céu do que espécies descritas na Terra. A audaciosa tarefa, porém, foi abraçada nos últimos seis anos por uma rede internacional de pesquisadores cujo objetivo, nada modesto, é contabilizar e descrever todos os seres vivos do planeta – estima-se que apenas 10% das espécies são conhecidas. A forma como isso é feito parece coisa de cinema: um tipo de código de barras identifica cada ser de acordo com seu grupo, criando uma biblioteca genética digital possível de ser acessada por qualquer pessoa no mundo pela internet (www.boldsystems.org). O Brasil, detentor de uma das maiores biodiversidades do planeta, entrou na empreitada em dezembro do ano passado, com a Índia e a China.

O Projeto Internacional Barcode of Life (código de barras da vida – iBol, na sigla em inglês) foi iniciado em 2005 com o objetivo de fornecer um sistema de bioindetificação global. O trabalho é relativamente simples e bastante engenhoso. Em vez de sequenciar o genoma completo de cada animal, planta, fungo ou alga, os pesquisadores decifram as letras de um único gene (no caso de animais e plantas são dois ou três) compartilhado pelas diferentes espécies. Desse modo, é possível compará-las e identificar quando se trata de alguma descoberta.

As sequências são enviadas para um banco de dados alimentado por pesquisadores de todo o mundo. Atualizado diariamente, o arquivo tinha mais de 1,7 milhão de registros até abril passado. “De fato, nós descrevemos somente cerca de 1,7 milhão de espécies ao longo dos últimos 250 anos e nem sequer sabemos a ordem de grandeza de quantas espécies existem no planeta. As estimativas variam de 5 milhões a 100 milhões”, diz o pesquisador canadense Robert Hanner, um dos gerentes da iniciativa mundial.

A quantidade de registros no iBol, porém, não significa o número de espécies conhecidas, pois muitas sequências são repetidas e servem para apontar as diferentes áreas de ocorrência de um animal ou planta. As comparações mostram também se uma espécie acaba de ser descoberta. Segundo Hanner, isso resolve erros de identificação, como casos em que dois animais são classificados como sendo o mesmo. O trabalho é feito por pesquisadores especializados em cada grupo de ser vivo e taxonomistas.

Participação nacional – Para acompanhar a empreitada, o Brasil criou a Rede de Pesquisa de Identificação Molecular da Biodiversidade Brasileira (BR-BOL), coordenada pelo biólogo Cláudio Oliveira, do Instituto de Biotecnologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

O grupo nacional tem como meta catalogar em três anos 120 mil exemplares de 24 mil espécies. A tarefa está repartida entre 10 grupos, compostos por especialistas de diversas instituições. “Esperamos chegar a cerca de 10% do que se imagina haver de biodiversidade no Brasil”, conta Oliveira.

A expectativa do coordenador é baseada na identificação básica (coleta e identificação morfológica) que vem sendo feita há décadas pelas instituições brasileiras. “Temos resultados de diversos grupos que antecederam à rede e que, hoje, fazem parte dela. Vamos selecionar tudo que é do Brasil e que está no banco mundial para ter uma ideia do que já foi identificado. A partir daí, vamos acrescentar novas informações”, explica.

O pesquisador Paul Herbert, inventor do sistema Barcode, enxerga o Brasil como a menina dos olhos da rede internacional. “Acredita-se que o país abrigue mais espécies de animais e plantas do que qualquer outra nação, e muitas dessas espécies, como o mico-leão-de-cara-preta e o mico-leão-dourado, só existem no Brasil”, afirma ao Correio. “Além disso, o país tem uma forte capacidade científica nos campos que são centrais para o iBOL (taxonomia, informática e genômica)”, elogia.

Ainda segundo Herbert, o código de barras da vida terá aplicações em todas as áreas da ciência. Será útil, por exemplo, no diagnóstico rápido de espécies que atacam culturas agrícolas ou insetos transmissores de doenças. Também fornecerá informações para programas de conservação e gestão dos recursos naturais. “E dará uma grande ajuda a projetos de bioprospecção e à pesquisa científica de base”, aposta o canadense.

Cláudio Oliveira ressalta que o Brasil também tem muito a ganhar, principalmente na conservação de sua biodiversidade. “Acredito que algumas espécies já desapareceram sem que soubéssemos de sua existência”, lamenta o biólogo. Nesse sentido, o projeto desempenha um papel central, por acelerar o registro das espécies desconhecidas e mapear a distribuição daquelas já identificadas.

O iBOL não é apenas o maior programa de estudo da biodiversidade já realizado, mas um modelo raro de colaboração científica entre pesquisadores de diferentes países. Segundo Oliveira, é a primeira vez que se envolve um número tão grande de cientistas em um estudo. “Com essa abrangência, estamos juntando esforços para gerar resultados importantes para o planeta todo”, comemora o biólogo.

Fonte: Correio Braziliense


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Sobre a “Sustentabilidade” do Crescimento Econômico

Por Vitor Bukvar Fernandes enviado ao blog de Luis Nassif.

Nassif, aqui vai um resumo de alguns argumentos para artigo que estou escrevendo. Acredito ser importante chamar à atenção o relatório do UNEP visto que ele define o marco e condução das políticas relacionadas à sustentabilidade (mais precisamente, ao que é sustentabilidade, como definição mais bem aceita pela mainstream).

Com a aproximação do encontro Rio+20 em maio de 2012, e tendo em vista a crescente visibilidade da temática ecológica nos dias de hoje, temos que os pronunciamentos do United Nations Environmental Programme (UNEP – ou, em português Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, PNUMA) ecoam globalmente em diferentes estratos, desde a comunidade acadêmica até empresas e impactando fortemente no modus operandi dos policy-makers e instituições internacionais.

O modo de propagação mais recente desta ideologia de crescimento econômico “verde”, o relatório do “Greening the Economy” do UNEP, busca atualizar a posição de desenvolvimento sustentável da ONU o que representa, ao menos em parte, a posição do mainstream de teoria econômica no que tange a relação entre crescimento econômico e sustentabilidade ecológica.

(Este relatório foi lançado em fevereiro deste ano, e pode ser encontrado aqui:http://www.unep.org/greeneconomy/GreenEconomyReport/tabid/29846/Default.aspx )

A ideia de “esverdeamento” da economia é apresentada como forma gradual de se adequar o funcionamento social e econômico rumo a uma “economia verde”, definida como uma em que seja possível o crescimento econômico contínuo em conjunto com completa sustentabilidade ecológica e grande equidade social.

É interessante notar que a posição do UNEP é de completo otimismo com relação ao cenário futuro possível, e que a ideia de rumar para uma “economia verde” tem a capacidade de alcançar o desenvolvimento sustentável e erradicar a probreza numa escala nunca antes vista, com rapidez e eficiência.

No debate sobre a existência ou não de contradições entre crescimento econômico e sustentabilidade ecológica (trade-off entre progresso econômico e sustentabilidade ecológica) o posicionamento do UNEP é claramente de que este não existe, como transcrito abaixo:

“One of the major findings of this report is that a green economy supports growth, income and jobs, and that the so-called trade-off between economic progress and environmental sustainability is a myth, especially if one measures wealth as stocks of useful assets, inclusive of natural assets, and not narrowly as flows of produced output.” (UNEP, 2011:622)

O segundo ponto do posicionamento do UNEP é que não apenas não existe este trade-off como o cenário futuro projetado é superior em todos os sentidos com relação ao padrão atual de funcionamento da economia (business-as-usual), inclusive no cenário de economia verde há criação de mais empregos, maior rentabilidade em paralelo com a sustentabilidade ecológica.

Este viés de argumentação permeia todos os capítulos do relatório e, por isso, procurarei expor, a seguir, as fragilidades que abragem o relatório inteiro em sua fonte, o capítulo que trata da modelagem econômica utilizada para embasar as conclusões tiradas pelo estudo. É lá onde estão declaradas as premissas e hipóteses utilizadas e que podem ser analisadas de uma maneira crítica.

As premissas do modelo T21 Mundial (T21 World model), utilizado pelo UNEP na construção do “Greening the Economy”, incluem a noção de equilíbrio presente no mainstream econômico, derivado da interação entre os atores econômicos. Outro ponto que deve ser deixado claro é que o tratamento do modelo econômico, apesar de “endogeneizar” algumas variáveis ambientais como os estoques de combustíveis fósseis e ter componentes de consideração em relação às variáveis que compõe a “pegada ecológica”, ainda considera ser possível a substituição de capital natural por alguma combinação de trabalho e capital (através de uma função de produção do tipo Cobb-Douglas), mesmo que de forma não perfeita. Daí é possível traçar o surgimento da sobre-ênfase dada ao papel da tecnologia como poupadora de recursos naturais que permeia todo o relatório em termos como decoupling.

Tim JACKSON (2009) contrasta esta ideia de decoupling com os fatos, por exemplo, de que a escala de melhorias com relação a este paradigma de decoupling é totalmente irreal – num mundo de 9 bilhões de pessoas, a intensidade de carbono deveria reduzir 11% ao ano para estabilizar as mudanças climáticas, 16 vezes mais rápido do que vem declinando desde 1990. Em 2050, a intensidade de carbono deveria ser pelo menos 130 vezes menos do que é hoje. Para o autor, não há um cenário crível e justo social e ecologicamente para uma economia de 9 bilhões de pessoas. Neste contexto, a assunção simplista de que a propensidade intrínseca do capitalismo em relação ao aumento de eficiência vai estabilizar o clima e nos proteger contra a escassez torna-se, no mínimo, discutível.

Com relação à suposta neutralidade científica do texto do UNEP, um comentário que acredito ser bem cabido aqui advém de Marcos  NOBRE (2002), onde ele expressa de maneira clara a opinião da qual partilho com relação a institucionalização do conceito de desenvolvimento sustentável e do papel da UNEP como propagadora desta visão:

“Dentre os fatores que permitiriam a conquista e a manutenção da hegemonia, por parte da economia ambiental neoclássica, do conceito de DS [desenvolvimento sustentável], certamente é preponderante o proceso de institucionalização da problemática ambiental […] Mas poderíamos listar ainda outros fatores, como: a teoria econômica neoclássica já é previamente hegemônica no campo mais amplo da teoria econômica; o rigor formal das formulações neoclássicas em geral e para o DS em particular reveste tais formulações da chancela do “científico” e, portanto, garante sua aceitação como “verdade” em amplos círculos; a abordagem neoclássica demonstra grande capacidade de prover, nos seus termos, respostas “precisas” e diretrizes operacionais claras; as principais instituições econômicas, principalmente a dos países centrais e as agências multilaterais, apropriam-se política e ideologicamente das formulações ambientais neoclássicas, fechando e realimentando o ciclo de formação de hegemonia.”

Com isso, complementa Marcos NOBRE (2002), incorre-se em que hoje a crítica da perspectiva neoclássica é também a crítica dessa determinada apropriação da noção de desenvolvimento sustentável que desfruta de posição hegemônica no debate, não sendo assim descabido, na minha opinião, tratar dos problemas de formulação teórica e expôr o viés neoclássico que fundamenta o modelo econômico, visto que é com base nisso que o relatório do UNEP se sustenta.

A grande jogada por trás do conceito de desenvolvimento sustentável utilizado pelo UNEP é que conseguiu-se esvaziar-se o debate sobre suas contradições através da “vaguidão” de sua definição, abarcando duas visões antagônicas (preservacionistas e desenvolvimentistas) sob o mesmo semblante, que proclama a “desmistificação” do conflito entre crescimento econômico e sustentabilidade, legitimando seu argumento conciliador entre os dois através de um modelo econômico que traz imbuido em sí, implicitamente, o modo de apreender o mundo dado pela economia neoclássica.

Como último comentário aqui, acredito ser de suma importância notar que o conceito de desenvolvimento sustentável está longe de ter uma definição precisa e ainda mais distante de estabelecer um campo “neutro” de disputa política, o que implica que para fazer uma leitura crítica de UNEP (2011) é necessário, antes de mais nada, atentar para o seu caráter político como reforçador de uma definição específica de desenvolvimento e de sustentabilidade.

Vitor Bukvar Fernandes,

Mestrando em Desenvolvimento Econômico pela UNICAMP.

bibliografia:

UNEP. Greening the Economy – Pathways to Sustainable Development and Poverty Eradication. 2011.

NOBRE, Marcos. Desenvolvimento sustentável: origens e significado atual. In: NOBRE, Marcos e AMAZONAS (org.), Maurício de Carvalho. Desenvolvimento Sustentável: A Institucionalização de um Conceito. Ed. IBAMA. Brasília, 2002.

JACKSON, Tim. Prosperity without growth? The transition to a sustainable economy. 2009.


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Sobre economia e ambiente

Texto muito interessante que nos instiga a refletir. Vale a leitura com certeza!

Por Ari de Oliveira Zenha

“Que tempos são esses, em que falar de árvores é quase um crime, pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?” – BERTOLT BRECHT, Aos que vão nascer.

No intuito de se entender a relação entre economia e meio ambiente, é necessário e importante se esclarecer, ainda que de forma breve, o significado da relação entre o homem e a natureza através do trabalho.

A relação homem/natureza sempre existiu, pois “nem a natureza objetivamente nem a natureza subjetivamente existem de modo imediatamente adequado ao ser humano” (Karl Marx). Sendo assim, a natureza há que ser transformada pela ação humana, pelo trabalho humano que a submete e a ajusta às suas necessidades essenciais. Portanto, como afirma Vázquez, “o homem só existe na relação prática com a natureza. Na medida em que está – e não pode deixar de estar – nessa relação ativa, produtiva, com ela, a natureza se lhe oferece como objeto de matéria de sua atividade, ou como resultado desta, isto é, como natureza humanizada…”.

Com o advento do capitalismo, esta relação fundamental entre o homem e a natureza sofre uma profunda transformação. A lógica do lucro, inerente a esse regime de propriedade privada dos meios de produção, faz do homem e da natureza fontes de seu contínuo e crescente crescimento e reprodução. Os rudimentares instrumentos de trabalho são substituídos por novos e permanentemente aperfeiçoados métodos e implementos de produção, aumentando a capacidade produtiva do trabalho e, portanto, a forma de apropriação da natureza, de maneira jamais experimentada em outras épocas. Transformados em forças produtivas do e para o capital, os meios de produção modernos não mais servem apenas de meios para retirar da natureza os meios de subsistência humana, antes passam a ser utilizados intensivamente para produzir os excedentes apropriados, na forma de lucro, pelo capital.

É sob essa conformação estrutural que aparece a relação entre economia e meio ambiente, uma relação que denota o efeito predatório da produção capitalista sobre a natureza e/ou sobre o meio ambiente.

Tanto a agricultura explorada sob a forma capitalista como a indústria, em seu processo de crescimento e de concentração, participam da busca incessante de lucros, desencadeando e intensificando, para tanto, métodos ruinosos à natureza onde atuam.

A mecanização acelerada, os agrotóxicos e outros elementos químicos utilizados no manejo da terra e no trato dos animais são exemplos de métodos nocivos – ao homem e ao meio ambiente – predominantes na agricultura capitalista. Na indústria, as tecnologias empregadas ao longo dos duzentos anos do sistema fabril já causaram danos irreparáveis à natureza e à existência humana.

As condições degradantes a que o meio ambiente foi e ainda é submetido resultam dessa exploração predatória empreendida pelo capital em sua interação com a natureza, constituindo uma ameaça permanente ao equilíbrio ecológico.

A questão do meio ambiente – a ecologia -, portanto, não pode ser abordada e/ou compreendida independentemente de sua vinculação com a estrutura do regime capitalista de produção. Se não for assim, as análises e proposições decorrentes serão inúteis e ineficazes, pois que não partem dos alicerces do modo de produção do capital que engendra, na sua busca obstinada de lucro, os efeitos destrutivos sobre o meio ambiente. Tratar o meio ambiente isoladamente, fora de sua íntima conexão com a economia de base capitalista, é o mesmo que navegar na superfície dos fenômenos sem atingir a sua essência, ou seja, as particularidades inerentes e distintivas do modo de produção capitalista.

É sob essa ótica da relação intrínseca entre a economia (capitalista) e o meio ambiente que devem ser tratadas questões fartamente divulgadas, mas não enfocadas em suas raízes. Entre tantas outras questões, podem-se nominar: o aquecimento global; a camada de ozônio; o lixo nuclear; os transgênicos; a devastação das florestas; a poluição ambiental; o uso intensivo e indiscriminado de inseticidas; a emissão de monóxido de carbono; os resíduos industriais e hospitalares; o esgotamento acelerado de matérias-primas não renováveis; os constantes desastres ecológicos provocados por resíduos químicos; a monocultura intensiva; as mudanças climáticas; a pesca predatória; o extermínio da fauna e flora; a ocupação desordenada do campo e das cidades; o surgimento de megalópoles e a crescente favelização mundo afora; o aquecimento dos oceanos; e o comprometimento da biodiversidade.

Ao contrário da relação entre o homem e a natureza descrita inicialmente, onde a natureza é humanizada pela ação do trabalho humano ou, ainda, transformada para a humanidade ao se objetivar em produtos para a satisfação das necessidades do homem, tem-se agora uma relação totalmente desvirtualizada. No capitalismo, a ligação entre o homem e a natureza se estabelece de forma desumanizadora. Ao invés de objetos de uso para a humanidade, o capital extrai implacavelmente tudo da natureza que possibilita a obtenção de produtos vendáveis e/ou lucrativos para si, de forma crescente e avassaladora, dado o extraordinário desenvolvimento das forças produtivas que ele próprio promove. A natureza se torna, para o capital, um meio de satisfação e realização da ganância de poucos, em detrimento da imensa população de agora e por vir


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Ar quente antecede volta da chuva que pode ser intensa aqui no RS

Excelente reportagem da MetSul Meteorologia. Vale a pena conferir!!!


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Um futuro prêmio Nobel brasileiro no país da meritocracia (e nosso ex-quase prêmio Nobel no país da inveja)

Por Adriana Salles Gomes

Foi incontrolável. Um dos sentimentos que tive ao sair da excelente palestra do neurocientista Miguel Nicolelis na semana passada na Sala São Paulo (projeto Fronteiras do Pensamento) foi o de alívio. E por um motivo que, em outro país qualquer, eu teria vergonha de abrir publicamente. Eu me senti aliviada pelo fato de Nicolelis conduzir suas pesquisas principalmente nos Estados Unidos, na Universidade Duke, não no Brasil. Não por causa da maior disponibilidade de recursos que existe lá, o que é inegável mas em alguma medida contornável, e sim por um dos sete pecados capitais do homem – a inveja.

É que Nicolelis é um seríissimo candidato a prêmio Nobel de Medicina com sua pesquisa, que eu já sabia ser absolutamente revolucionária e fundamental, mas “em que grau” ela o é foi algo que só entendi mesmo depois da palestra (divido com vocês após o jump). E como o Brasil tem a “jurisprudência” do Nobel que o cientista Carlos Chagas ganhou e não levou, em 1921, por sabotagem dos pares brasileiros, não queria correr o risco de a história se repetir.

Este site conta a história, mas eu trago para cá a visão do historiador argentino Sierra-Iglesias: “En 1921 era propuesto para el Premio Nobel de Medicina, y cuando todo presumía que le sería otorgado, inconfesables influencias se interpusieron. El Instituto sueco se había dirigido a organismos científicos del Brasil recabando datos sobre su personalidad, sobre su obra, pero algunos sus propios compatriotas (increíblemente, entre ellos algunos no médicos, por lo tanto primariamente inhabilitados para juzgar el descubrimiento de la tripanosomiasis), lo desaconsejaron, siendo este año declarado desierto este codiciado lauro mundial”.

Quer dizer mais ou menos o seguinte: as rainhas de Copas mandaram cortar a cabeça do Carlos Chagas, naquele pedaço em que o país das maravilhas se torna o país da inveja. Resultado: o Nobel de Medicina de 1921 ficou sem dono e desconfio que o Brasil paga por isso até hoje – ZERO Nobel pra nóis, em qualquer área. Estão certos os suecos, aliás. Se fosse um sueco, eu pensaria 500 vezes antes de premiar um brazuca. E tudo aconteceu mesmo com a gente adorando Nobel e Oscar (ok, talvez não nessa ordem).

“Mas isso é muito antigo, foi em 1921″, vocês dirão. Nos anos 1960, era igual, pelo que sei de história familiar. Meu pai foi professor e pesquisador da USP e a sabotagem foi tanta que ele abandonou seus sonhos e ficou só com sua clínica. Tudo bem, meu pai não era exatamente uma pessoa dócil nem dado a composições e concessões políticas- mas, nos EUA, quando a pesquisa é de fato importante, os pares não exigem isso. Atualmente? Parece que a situação melhorou, mas ainda ouço muitas queixas de que está longe do parâmetro americano.

“Mas isso é fenômeno localizado, só na academia”, vocês dirão. “Nos outros lugares, dá para inovar em paz.” Não dá. Experimenta fazer algo realmente original e no capricho no serviço público para ver a reação dos pares. Talvez isso explique até por que ainda há empresas que resistem em se unir ou se organizar em clusters (agrupamentos), mesmo Michael Porter já tendo provado por A + B que juntas elas ficam muito mais competitivas do que sozinhas. Prevendo a “inveja” (ou a “cobiça”) da outra, cada uma teme ter suas ideias roubadas ou seu tapete puxado.

Como ironia pouca é bobagem, o assunto “a solidariedade de grupo versus a inveja do outro” remete, inclusive, a uma das grandes contribuições de Nicolelis à ciência. Até ele e seu colega Chaplin, a neurofisiologia estudava o cérebro neurônio por neurônio, acreditando que precisava entender a função de cada um. Então, os dois chegaram e disseram: vamos medir os sinais elétricos –monitorando o comportamento– de grandes grupos de células e assim mudaram o paradigma dos estudos, chegando mais perto de entender como o cérebro realmente funciona. No começo, eles conseguiam captar os sinais de poucos neurônios de cada vez –10, 100– mas isso saltou para 1.000 hoje e, em cinco ou dez anos, pode subir a 100 mil. No cérebro, os neurônios trabalham juntos, colaboram.

A gente critica a cultura winner-loser vigente nos EUA, mas o fato é que lá o vencedor é admirado e, mais importante, ajudado, porque se entende que o êxito dele respingará (para dizer o mínimo) nos ajudantes. Tão ou mais relevante que a democracia americana é sua meritocracia. E é por tudo isso, e pelo Carlos Chagas, que fico feliz de Nicolelis estar sediado nos Estados Unidos, não no Brasil, apesar de todo o patriotismo que reconheço e admiro nele e em atitudes maravilhosas como a de montar um centro de excelência científica fora do eixo Rio–São Paulo, no Rio Grande do Norte, uma das regiões mais pobres do País.

Depois do “more”, joguei sete notas despretensiosas (de memória) da palestra de Nicolelis para quem quiser entender melhor a dimensão do que esse cara está fazendo (Raquel, faça acréscimos!). Ele definiu o neurocientista como um astrônomo descobrindo um novo universo – nada mais perfeito. Mas o melhor mesmo é vocês comprarem seu recém-lançado livro, Muito Além do Nosso Eu. Vamos ajudar Nicolelis e deixar seu sucesso respingar em nós, moçada!

SETE NOTAS RÁPIDAS:

1) Em primeiro lugar, como eu já disse, Nicolelis e Chaplin ajudaram a mudar o enfoque da neurofisiologia. ‘Em vez de olhar uma célula de cada vez, analisamos grandes grupos que nos permitem chegar mais perto da dinâmica de funcionamento dessa estrutura em termos operacionais, o como funciona.’ Começaram a medir os impulsos cerebrais (sinais elétricos) de vários neurônios ao mesmo tempo.

2) Nicolelis e colegas descobriram que esses sinais elétricos são caóticos. E que, quando ficam muito sincrônicos e ordenados, ocorre o ataque epiléptico. Para tratá-lo, propuseram desorganizar tais sinais, por meio de sinais elétricos artificiais no nervo da face. E os resultados têm sido fantásticos -já começam a testar em pessoas, inclusive.

3) Aí Nicolelis e sua turma descobriram que, no mal de Parkinson, o cérebro se comporta mais ou menos como numa crise epiléptica de baixa frequência. Novamente propuseram desorganizar tais sinais – agora, com um estímulo na medula espinhal. As imagens que Nicolelis mostrou à plateia do “Fronteiras do Pensamento” nesse momento foram absolutamente comoventes: o ratinho com Parkinson em estado terminal (o que lhe dava imobilidade total) que conseguiu se mover até a água e bebê-la e a macaca idem que escalou a gaiola para se alimentar.

4) Com essas pesquisas começou a surgir a ideia da interface cérebro-máquina, que o poderoso MIT (Massachusetts Institute of Technology) já classificou com uma das dez tecnologias que vão mudar o mundo. A máquina faria uma função complementar, emitindo sinais elétricos que corrigissem eventuais patologias do cérebro.

5) Então, Nicolelis e sua equipe ficaram deliciosamente ambiciosos; pensaram na possibilidade de fazer o cérebro emitir sinais elétricos para comandar a máquina e, assim, resolver problemas como o de tetraplégicos (que tiveram a comunicação do cérebro com o restante do corpo interrompida) não poderem andar. A máquina, no caso, seria um artefato neurotecnológico, como um terno robótico que a pessoa vestiria e comandaria com a mente. Nicolelis mostrou o vídeo do teste feito com a macaca Aurora (outro momento emocionante da palestra): puseram-lhe um braço robótico para ela jogar videogame e fizeram-na acreditar que aquele era seu braço real. Estimulada pelo prêmio do suco de laranja a cada vez que ela acertasse o alvo no jogo, ela acertou 98% das vezes. Pensem bem: ela só pensou o movimento –o braço robótico foi que o executou ao receber os sinais do cérebro dela. Depois, fizeram experiência similar com a macaca nos Estados Unidos comandando um robô na Austrália numa esteira – ABSURDAMENTE GENIAL E ARREPIANTE.

6) Teria muito mais para contar, mas acho que o importante é entender que o cérebro, até há pouco tempo visto como um passivo decodificador da realidade, nos está sendo reapresentado pelo cientista brasileiro como um simulador e escultor dessa realidade (nas palavras do próprio Nicolelis). O comando de alguma ação por nosso cérebro (por exemplo, a emissão dos impulsos elétricos de vários neurônios que me faz digitar essas palavras e faz vocês as lerem) sempre ocorre meio segundo antes de o ato se materializar, o que mostra que o cérebro está constantemente construindo o futuro. Há até uma hipótese (por enquanto, só especulação) de que os sonhos, além de processarem passado distante e imediato, talvez sejam usados também para que possamos experimentar cenários de futuro, como se fizéssemos simulações sobre nossas ações. Periga de isso mudar até os valores e hábitos de nossa sociedade, hoje muito baseada no corpo.

7) Nicolelis terminou sua palestra falando de seu sonho de um adolescente brasileiro tetraplégico dar o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2014 no Brasil usando a interface cérebro-máquina (vestindo o terno robótico), sobre o qual já escrevi aqui. Ainda bem que ele tem financiamento europeu para esse projeto Walk Again e o apoio do mundo inteiro. Só espero que o ajudemos no pouco que depende de nós.


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Radar enxerga embaixo dos mantos de gelo polares

Antenas de alta precisão

Antenas desenvolvidas por cientistas suíços sondaram as camadas de gelo de vários quilômetros de espessura da Antártida e as rochas que estavam embaixo delas. A descoberta interessa não apenas a geólogos e climatologistas, que tentam medir os efeitos do aquecimento global nas regiões da Terra cobertas de gelo, mas também aos astrônomos, de olho nos mantos de gelo da Lua ou de Marte.

Acopladas a um avião, antenas de alta precisão projetadas na Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL) conseguiram analisar com precisão inédita a composição de uma camada de gelo de quase três quilômetros de espessura, bem como a profundidade do leito rochoso subjacente. A criação dessas antenas de alta tecnologia faz parte de um projeto denominado Polaris (Polarimetric Airborne Radar Ice Sounder), lançado pela Agência Espacial Europeia (ESA) e executado pela Universidade Técnica da Dinamarca.

Complicações de menor precisão

Juan Mosig, responsável pelo laboratório de eletromagnetismo e acústica da EPFL, que fabricou as antenas, afirma que eles haviam inicialmente considerado testar o equipamento nas geleiras de Aletsch, o maior glaciar dos Alpes, situado no cantão do Valais, no sudoeste da Suíça. Mas, segundo o cientista, a regulamentação suíça exige um processo muito complicado e demorado para obter a autorização para fazer esses voos.

Os dinamarqueses sugeriram então a Groenlândia – “mas chegar até lá eram outros quinhentos”, disse. “Com as antenas [que medem 8 metros por 50 centímetros e pesam 40 kg] acopladas à fuselagem, o avião quase que ganha uma asa extra, o que complica muito o voo. Certamente, não era coisa para principiantes,” explica.

Sem mencionar as temperaturas, que podem cair abaixo de -50° Celsius, e as pistas de gelo, que causam terríveis vibrações na decolagem e na aterrissagem – em suma, condições que não são muito diferentes do lançamento de algo ao espaço.

Radar espacial

Os astrônomos também estão ansiosos. Se os testes realizados na Groenlândia e na Antártida forem conclusivos, o próximo passo será unir as antenas a um satélite para analisar as camadas de gelo da Terra a partir do espaço. Eventualmente, a ESA pode ainda usar a tecnologia para estudar os diferentes tipos de gelo de Marte ou das luas de Júpiter e Saturno. Enquanto o gelo do fundo das crateras lunares é feito de água, o dos pólos de Marte é uma mistura de água congelada e gelo seco, a forma sólida do dióxido de carbono.

Após o sucesso da missão espacial Cassini-Huygens até Saturno e seu maior satélite, Titã, que resultou em um pouso da sonda na superfície deste satélite natural de Saturno, os cientistas querem enviar mais equipamentos até lá, o que poderia nos ensinar muito sobre a nossa própria origem – isso se eles conseguirem olhar por baixo do gelo.

Atlântida e dinossauros congelados

Voltando à Terra, não existe um mapa completo da terra localizada embaixo das calotas. Mosig diz que as imagens dos satélites são imprecisas – “e não é como se pudéssemos perfurar e retirar amostras de gelo a cada 100 metros”.

Os inventores do radar que “olha sob o gelo” vão apresentar os resultados preliminares da expedição à Antártida durante o XI Simpósio Internacional de Ciências da Antártida, a ser realizado em Edimburgo, na Escócia, entre os dias 10 e 16 deste mês.

“Haverá climatologistas, geólogos e outros cientistas que, com certeza, estarão interessados no que vamos dizer,” comentou Mosig, acrescentando que também haverá instituições científicas ou organizações internacionais que poderiam financiar a “engenhoca bonitinha” que pode ser usada para fazer mapas.

“Tem também os fãs de ficção científica que estão esperando que conseguiremos descobrir a lendária cidade submersa de Atlântida – ou um rebanho de dinossauros congelados,” disse Mosig, que não esconde ter sido influenciado pela ficção científica quando jovem, “como muitos cientistas”.

Mapeamento sob o gelo

Fixadas na parte inferior da fuselagem do avião, as oito antenas formam um radar de grande abertura, com capacidade de detecção de alta precisão. As antenas geram ondas eletromagnéticas com frequência de 450 MegaHertz (MHz), que em UHF (ultra-high frequencies) são semelhantes às ondas de televisores tradicionais.

“Dependendo de sua frequência, uma onda pode passar através de uma substância ou ser absorvida por ela”, explica Juan Mosig. “Ondas de UHF são as mais adequadas para este tipo de projeto, pois penetram facilmente no gelo.”

Toda vez que ocorre uma alteração na propriedade do gelo, uma parte da onda ricocheteia, retornando um eco fraco que é captado pela antena. Este eco é muito mais forte quando a onda atinge o solo.

Fonte: http://www.inocaotecnologica.com.br