Blog do Daka

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Um futuro prêmio Nobel brasileiro no país da meritocracia (e nosso ex-quase prêmio Nobel no país da inveja)

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Por Adriana Salles Gomes

Foi incontrolável. Um dos sentimentos que tive ao sair da excelente palestra do neurocientista Miguel Nicolelis na semana passada na Sala São Paulo (projeto Fronteiras do Pensamento) foi o de alívio. E por um motivo que, em outro país qualquer, eu teria vergonha de abrir publicamente. Eu me senti aliviada pelo fato de Nicolelis conduzir suas pesquisas principalmente nos Estados Unidos, na Universidade Duke, não no Brasil. Não por causa da maior disponibilidade de recursos que existe lá, o que é inegável mas em alguma medida contornável, e sim por um dos sete pecados capitais do homem – a inveja.

É que Nicolelis é um seríissimo candidato a prêmio Nobel de Medicina com sua pesquisa, que eu já sabia ser absolutamente revolucionária e fundamental, mas “em que grau” ela o é foi algo que só entendi mesmo depois da palestra (divido com vocês após o jump). E como o Brasil tem a “jurisprudência” do Nobel que o cientista Carlos Chagas ganhou e não levou, em 1921, por sabotagem dos pares brasileiros, não queria correr o risco de a história se repetir.

Este site conta a história, mas eu trago para cá a visão do historiador argentino Sierra-Iglesias: “En 1921 era propuesto para el Premio Nobel de Medicina, y cuando todo presumía que le sería otorgado, inconfesables influencias se interpusieron. El Instituto sueco se había dirigido a organismos científicos del Brasil recabando datos sobre su personalidad, sobre su obra, pero algunos sus propios compatriotas (increíblemente, entre ellos algunos no médicos, por lo tanto primariamente inhabilitados para juzgar el descubrimiento de la tripanosomiasis), lo desaconsejaron, siendo este año declarado desierto este codiciado lauro mundial”.

Quer dizer mais ou menos o seguinte: as rainhas de Copas mandaram cortar a cabeça do Carlos Chagas, naquele pedaço em que o país das maravilhas se torna o país da inveja. Resultado: o Nobel de Medicina de 1921 ficou sem dono e desconfio que o Brasil paga por isso até hoje – ZERO Nobel pra nóis, em qualquer área. Estão certos os suecos, aliás. Se fosse um sueco, eu pensaria 500 vezes antes de premiar um brazuca. E tudo aconteceu mesmo com a gente adorando Nobel e Oscar (ok, talvez não nessa ordem).

“Mas isso é muito antigo, foi em 1921″, vocês dirão. Nos anos 1960, era igual, pelo que sei de história familiar. Meu pai foi professor e pesquisador da USP e a sabotagem foi tanta que ele abandonou seus sonhos e ficou só com sua clínica. Tudo bem, meu pai não era exatamente uma pessoa dócil nem dado a composições e concessões políticas- mas, nos EUA, quando a pesquisa é de fato importante, os pares não exigem isso. Atualmente? Parece que a situação melhorou, mas ainda ouço muitas queixas de que está longe do parâmetro americano.

“Mas isso é fenômeno localizado, só na academia”, vocês dirão. “Nos outros lugares, dá para inovar em paz.” Não dá. Experimenta fazer algo realmente original e no capricho no serviço público para ver a reação dos pares. Talvez isso explique até por que ainda há empresas que resistem em se unir ou se organizar em clusters (agrupamentos), mesmo Michael Porter já tendo provado por A + B que juntas elas ficam muito mais competitivas do que sozinhas. Prevendo a “inveja” (ou a “cobiça”) da outra, cada uma teme ter suas ideias roubadas ou seu tapete puxado.

Como ironia pouca é bobagem, o assunto “a solidariedade de grupo versus a inveja do outro” remete, inclusive, a uma das grandes contribuições de Nicolelis à ciência. Até ele e seu colega Chaplin, a neurofisiologia estudava o cérebro neurônio por neurônio, acreditando que precisava entender a função de cada um. Então, os dois chegaram e disseram: vamos medir os sinais elétricos –monitorando o comportamento– de grandes grupos de células e assim mudaram o paradigma dos estudos, chegando mais perto de entender como o cérebro realmente funciona. No começo, eles conseguiam captar os sinais de poucos neurônios de cada vez –10, 100– mas isso saltou para 1.000 hoje e, em cinco ou dez anos, pode subir a 100 mil. No cérebro, os neurônios trabalham juntos, colaboram.

A gente critica a cultura winner-loser vigente nos EUA, mas o fato é que lá o vencedor é admirado e, mais importante, ajudado, porque se entende que o êxito dele respingará (para dizer o mínimo) nos ajudantes. Tão ou mais relevante que a democracia americana é sua meritocracia. E é por tudo isso, e pelo Carlos Chagas, que fico feliz de Nicolelis estar sediado nos Estados Unidos, não no Brasil, apesar de todo o patriotismo que reconheço e admiro nele e em atitudes maravilhosas como a de montar um centro de excelência científica fora do eixo Rio–São Paulo, no Rio Grande do Norte, uma das regiões mais pobres do País.

Depois do “more”, joguei sete notas despretensiosas (de memória) da palestra de Nicolelis para quem quiser entender melhor a dimensão do que esse cara está fazendo (Raquel, faça acréscimos!). Ele definiu o neurocientista como um astrônomo descobrindo um novo universo – nada mais perfeito. Mas o melhor mesmo é vocês comprarem seu recém-lançado livro, Muito Além do Nosso Eu. Vamos ajudar Nicolelis e deixar seu sucesso respingar em nós, moçada!

SETE NOTAS RÁPIDAS:

1) Em primeiro lugar, como eu já disse, Nicolelis e Chaplin ajudaram a mudar o enfoque da neurofisiologia. ‘Em vez de olhar uma célula de cada vez, analisamos grandes grupos que nos permitem chegar mais perto da dinâmica de funcionamento dessa estrutura em termos operacionais, o como funciona.’ Começaram a medir os impulsos cerebrais (sinais elétricos) de vários neurônios ao mesmo tempo.

2) Nicolelis e colegas descobriram que esses sinais elétricos são caóticos. E que, quando ficam muito sincrônicos e ordenados, ocorre o ataque epiléptico. Para tratá-lo, propuseram desorganizar tais sinais, por meio de sinais elétricos artificiais no nervo da face. E os resultados têm sido fantásticos -já começam a testar em pessoas, inclusive.

3) Aí Nicolelis e sua turma descobriram que, no mal de Parkinson, o cérebro se comporta mais ou menos como numa crise epiléptica de baixa frequência. Novamente propuseram desorganizar tais sinais – agora, com um estímulo na medula espinhal. As imagens que Nicolelis mostrou à plateia do “Fronteiras do Pensamento” nesse momento foram absolutamente comoventes: o ratinho com Parkinson em estado terminal (o que lhe dava imobilidade total) que conseguiu se mover até a água e bebê-la e a macaca idem que escalou a gaiola para se alimentar.

4) Com essas pesquisas começou a surgir a ideia da interface cérebro-máquina, que o poderoso MIT (Massachusetts Institute of Technology) já classificou com uma das dez tecnologias que vão mudar o mundo. A máquina faria uma função complementar, emitindo sinais elétricos que corrigissem eventuais patologias do cérebro.

5) Então, Nicolelis e sua equipe ficaram deliciosamente ambiciosos; pensaram na possibilidade de fazer o cérebro emitir sinais elétricos para comandar a máquina e, assim, resolver problemas como o de tetraplégicos (que tiveram a comunicação do cérebro com o restante do corpo interrompida) não poderem andar. A máquina, no caso, seria um artefato neurotecnológico, como um terno robótico que a pessoa vestiria e comandaria com a mente. Nicolelis mostrou o vídeo do teste feito com a macaca Aurora (outro momento emocionante da palestra): puseram-lhe um braço robótico para ela jogar videogame e fizeram-na acreditar que aquele era seu braço real. Estimulada pelo prêmio do suco de laranja a cada vez que ela acertasse o alvo no jogo, ela acertou 98% das vezes. Pensem bem: ela só pensou o movimento –o braço robótico foi que o executou ao receber os sinais do cérebro dela. Depois, fizeram experiência similar com a macaca nos Estados Unidos comandando um robô na Austrália numa esteira – ABSURDAMENTE GENIAL E ARREPIANTE.

6) Teria muito mais para contar, mas acho que o importante é entender que o cérebro, até há pouco tempo visto como um passivo decodificador da realidade, nos está sendo reapresentado pelo cientista brasileiro como um simulador e escultor dessa realidade (nas palavras do próprio Nicolelis). O comando de alguma ação por nosso cérebro (por exemplo, a emissão dos impulsos elétricos de vários neurônios que me faz digitar essas palavras e faz vocês as lerem) sempre ocorre meio segundo antes de o ato se materializar, o que mostra que o cérebro está constantemente construindo o futuro. Há até uma hipótese (por enquanto, só especulação) de que os sonhos, além de processarem passado distante e imediato, talvez sejam usados também para que possamos experimentar cenários de futuro, como se fizéssemos simulações sobre nossas ações. Periga de isso mudar até os valores e hábitos de nossa sociedade, hoje muito baseada no corpo.

7) Nicolelis terminou sua palestra falando de seu sonho de um adolescente brasileiro tetraplégico dar o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2014 no Brasil usando a interface cérebro-máquina (vestindo o terno robótico), sobre o qual já escrevi aqui. Ainda bem que ele tem financiamento europeu para esse projeto Walk Again e o apoio do mundo inteiro. Só espero que o ajudemos no pouco que depende de nós.

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Autor: Dakir Larara

Geógrafo, Professor universitário e pai das lindas Dandara e Anahí.

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