Blog do Daka

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Reflexões iniciais

6 Comentários

Depois de um tempo refletindo sobre tudo que está acontecendo em nosso país, vou dar um pitaco, mas bem de leve. Por favor comentem para que possamos trocar ideias e evoluir na análise desse fenômeno.

O movimento, iniciado como resistência ao aumento das tarifas do transporte, foi inédito e surpreendente. Quem achar que consegue captar todas suas dimensões e projeções futuras de imediato, muito provavelmente estará tendo uma visão redutiva do fenômeno, puxando o assado para sua brasa, no sentido de defender teses previamente elaboradas, para confirmar seus argumentos, sem dar conta do caráter multifacetário e surpreendente das mobilizações.

Quero colocar algumas reflexões prévias, que me parecem claras. Então lá vai…

Foi uma vitória do movimento a anulação do reajuste das passagens. Mostra a força das mobilizações, ainda mais quando se apoiam numa reivindicação justa e possível (tanto assim que foi realizada). Essa vitória, em primeiro lugar, reforça concretamente como as mobilizações populares valem a pena, sensibilizam as pessoas, fazem com se fale para toda a sociedade e servem como forte fator de pressão sobre os governos. Além disso, o movimento colocou em discussão uma questão essencial na luta contra o neoliberalismo => a polarização entre interesses públicos e privados. Sobre quem deve financiar os custos de um serviço publico essencial que, como tal, não deveria estar submetido aos interesses das empresas privadas, movidas pelo lucro.

A conquista da anulação do aumento se traduz num beneficio para as camadas mais pobres da população, que são as que normalmente se servem do transporte público, demonstrando como um movimento deve buscar abarcar não apenas as reivindicações que tocam cada setor da sociedade em particular, mas buscar atender as demandas mais amplas, especialmente as que tem a ver com os setores mais necessitados da sociedade e que tem mais dificuldades para se mobilizar. Talvez o aspecto mais essencial das mobilizações tenha sido o de fazer entrar na vida política a amplos setores da juventude, não contemplados por políticas governamentais e que, até aqui, não tinham encontrado suas formas especificas de se manifestar politicamente. Esta pode ser a consequências mais permanente das mobilizações.

Ficou claro também como os governos, dos mais diferentes partidos, uns mais (os de direita) outros menos (os de esquerda) tem dificuldades de se relacionar com mobilizações populares. Tomam decisões importantes sem consulta e quando se enfrentam com resistências populares, tendem a reafirmar tecnocraticamente suas decisões com frases e jargões como “não há recursos”, “as contas não fecham”, etc. sem se dar conta de que se trata de uma questão politica, de uma justa reivindicação da cidadania, apoiada em imenso consenso social, que deve ter soluções políticas para o que os governantes foram eleitos. Só depois de muitas mobilizações e de desgaste da autoridade dos governantes, as decisões corretas são tomadas. Uma coisa é afirmar que “dialoga” com os movimentos, outra é se enfrentar efetivamente com suas mobilizações, ainda mais quando contestam as decisões tomadas pelos governantes.

Certamente um problema que o movimento enfrenta são as tentativas de manipulação de fora. Uma delas, representada pelos setores mais extremistas, que buscaram inserir reivindicações maximalistas, de “levantamento popular” contra o Estado, que justificariam suas ações violentas, caracterizadas como vandalismo. São setores muito pequenos, externos ao movimento, com infiltração policial ou não. Conseguem o destaque imediato que a cobertura da mídia promove, mas foram rechaçados pela quase totalidade dos movimentos.

A outra tentativa é da direita, claramente expressa na atitude da velha mídia. Inicialmente esta se opôs ao movimento, como costuma fazer com toda manifestação popular. Depois, quando se deu conta que poderia representar um desgaste para o governo, as promoveu e tentou inserir, artificialmente, suas orientações dirigidas contra o governo federal. Foram igualmente rejeitadas essas tentativas apelas lideranças do movimento, apesar de que um componente reacionário se fez sempre presente, com o rancor típico do extremismo direitista, magnificado pela velha mídia.

É relevante destacar a surpresa dos governos e sua incapacidade de entender o potencial explosivo das condições de vida urbanas e, em particular, a ausência de políticas para a juventude por parte do governo federal. As entidades estudantis tradicionais também foram surpreendidas e estiveram ausentes dos movimentos.

Duas atitudes se digladiaram ao longo das mobilizações: a denúncia das suas manipulações pela direita, expressas e presente mais claramente na ação da mídia tradicional e nas tentações de se opor ao movimento. E aquela de exaltação acrítica do movimento, como se ele contivesse projetos claros e de futuro. Ambas são equivocadas no meu ponto de vista. O movimento surgiu de reivindicações justas, composto por setores da juventude, com seus atuais estados de consciência, com todas as contradições que um movimento dessa ordem contem. A atitude correta é de aprender do movimento e atuar junto a ele, para ajudar a que tenha uma consciência mais clara dos seus objetivos, das suas limitações, das tentativas de ser usado pela direita e dos problemas que suscitou e como levar adiante a discussão dos seu significado e melhores formas de enfrentar os seus desdobramentos.

O significado maior do movimento vai ficar mais claro com o tempo. A direita só se interessará nas suas estreitas preocupações eleitorais e nos seus esforços desesperados para chegar ao segundo turno nas eleições presidenciais. Setores extremistas buscarão interpretações exorbitantes de que estariam dadas condições de alternativas violentas, o que se esvaziará rapidamente.

O mais importante são as lições que o próprio movimento e a esquerda (partidos, movimentos populares, governos) tirem da experiência. Nenhuma interpretação prévia dá conta da complexidade e do ineditismo do movimento. Provavelmente a maior consequência seja a introdução da temática do significado político da juventude e de suas condições concretas de vida e de expectativas no Brasil do século XXI.

Abraços

Dakir Larara

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Autor: Dakir Larara

Geógrafo, Professor universitário, pai das lindas Dandara e da recém chegada Anahí e, claro, marido da amada Maíra.

6 pensamentos sobre “Reflexões iniciais

  1. Professor, tua análise e reflexão sobre o momento pelo qual passa o país e sobre as manifestações populares remetem a questões cruciais. A inexistência de políticas públicas eficazes para os mais pobres se constitui no combustível para as mobilizações populares. A partir daí, com o início dos enventos, conforme referes, percebemos a manipulação das informações, o comportamento das mídias, a inabilidade dos politicos com o movimento, e, concordando contigo, um fato inegavelmente importante, foi a inserção dos jovens no contexto das reivindicações e na essência de um movimento que é político, sem ser partidário. Como disseste, ainda não compreendemos a real dimensão do movimento. Mas, certamente, com ele teremos uma lição das multiconexões da sociedade e a certeza do poder do povo em busca de mudanças.

  2. Bons comentários a respeito das manifestações, principalmente no que se refere ao uso deste movimento, inicialmente legítimo, pela direita reacionária e respaldada pela mídia, na tentativa de desestabilizar o governo federal.
    Particularmente achei uma oportunidade valiosa e pouco aproveitada, quando num manifesto desta magnitude, a grande maioria dos manifestantes saem às ruas, mais por ser “fashion”do que ideológico.
    Como fizeram falta as disciplinas de Sociologia e Filosofia, para estes jovens! Eles são fortes e determinados, mas em sua maioria não gostam ou nunca antes haviam discutido política, pelo que percebi em algumas das entrevistas dos participantes. Que bom que acordaram, cabe a nós professores mediarmos esse debate de formação contínua. Pois somente quem conheceu as atrocidades cometidas na época da ditadura sabe o valor que a democracia tem. E devemos viver na busca permanente de melhorias, pois após atingimos uma demanda, passamos para a próxima.
    Só não concordo com a proibição, já que vivemos uma democracia, da participação de militantes históricos, por serem partidários e que há muito tempo se manifestam em busca de uma sociedade mais justa, como aconteceu mais de uma vez nestes manifestos. O movimento ser usado pela direita pode?
    Quem é contra os partidos políticos, normalmente é a favor da ditadura. Somente através da representação política eleita por voto direto, exercemos nossa cidadania e para chegarmos até aqui, milhares de militantes políticos de esquerda foram assassinados, tanto no Brasil quanto na América Latina, durante a ditadura militar.
    Sempre é saudável fazer com que o governo dialogue com os movimentos e esse diálogo foi garantido através desta manifestação, mas devemos estar atentos às investidas veladas contra nossa valiosa democracia não admitindo retrocesso!

  3. Valeu a pena, toda a movimentação das ruas e das redes sociais, pois conseguimos aprovação hoje do investimento de 75% dos royalties do petróleo para a Educação e 25% para a Saúde!!
    Agora só falta continuar a pressão para passar no Senado.
    Estamos, com certeza, construindo um Brasil melhor!
    Abs

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