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Marinha começará produzir combustível para submarino nuclear

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A Marinha deve começar a operar a nova unidade de conversão para produção de combustível para o submarino nuclear em setembro próximo e, até 2014, deverão estar prontas as instalações para os testes do reator que vai ser usado no submarino. A unidade de conversão e o reator estão sendo construídos no Centro Experimental de Aramar, localizado na cidade de Iperó, interior de São Paulo, onde está parte das atividades de pesquisa e desenvolvimento da Marinha.

Submarino nuclear brasileiro

A ideia de ter um submarino nuclear brasileiro surgiu há mais de 20 anos, mas o programa andou a passos muito lentos, com projetos e encomendas pontuais de construção de componentes para o submarino. O acordo entre os governos do Brasil e da França, em 2008, trouxe novo alento ao projeto brasileiro de ter um submarino nuclear. A previsão é de que o primeiro submarino nuclear nacional fique pronto em 2022.

O acordo define que a França vai trabalhar os aspectos da engenharia naval, dos sistemas eletrônicos e dos armamentos. Técnicos brasileiros serão treinados na França e há previsão de transferência de tecnologia para o Brasil. Serão fornecidos os submarinos Scorpenes, da empresa Direction des Constructions Navales et Services (DCNS).

Além dos quatro convencionais, o acordo prevê a construção do submarino nuclear, mas, nesse caso, a França vai entrar apenas com a parte não nuclear do projeto, ou seja, o Brasil é subcontratado pelos franceses para desenvolver o reator nuclear.

Propulsão nacional

A tecnologia da propulsão será nacional, explicou o contra-almirante Luciano Pagano Júnior, superintendente do programa do submarino nuclear, no seminário “Marinha do Brasil: o Programa do Submarino Nuclear Brasileiro (PROSUB)”, organizado pelo Observatório da Inovação e Competitividade, do Instituto de Estudos Avançados da USP, realizado na Escola Politécnica da USP, em São Paulo no dia 2 de maio.

Será responsabilidade nacional também construir o estaleiro que fabricará o novo submarino e também a base da Marinha de onde ele vai atuar quanto entrar em operação. Os franceses participam como parceiros desses projetos, pois servirão para construção dos submarinos convencionais. Mas as demandas da Marinha relacionadas ao submarino nuclear vão requerer investimento em desenvolvimento tecnológico, já que um estaleiro e uma base para uma embarcação movida a propulsão nuclear difere, em aspectos técnicos e, principalmente, de segurança, de empreendimentos convencionais do setor.

Segundo o contra-almirante, a nova base da Marinha que deverá abrigar o submarino nuclear ficará na Baía de Sepetiba, no litoral sul do Rio de Janeiro, próximo do Porto de Itaguaí. O processo de licenciamento ambiental está em análise no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o licenciamento da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), responsável por analisar o aspecto da segurança no caso de empreendimentos nucleares, está em andamento.

Já em setembro deste ano deve entrar em operação a unidade de conversão no Centro Aramar, em São Paulo. Ela fará uma etapa da produção do combustível nuclear – a conversão do chamado yellow cake, o urânio em forma de pó, para o gás hexafluoreto de urânio. É preciso converter para gás porque assim fica mais fácil separar o urânio 235, presente em mais baixa concentração no mineral, mas que interessa para fazer o combustível, do urânio 238, seu isótopo, que não interessa para fins de geração de energia. Atualmente, o Brasil faz a etapa de conversão no exterior.

Combustível para submarino nuclear

A unidade de conversão em Iperó é considerada piloto e vai atender apenas as demandas da Marinha relacionadas ao abastecimento de combustível do submarino nuclear. As necessidades das usinas nucleares brasileiras, portanto, não serão atendidas pela nova unidade de conversão da Marinha. Isso ocorre por causa do volume de combustível nuclear necessário para o submarino, bem menor do que a demanda das usinas.

A unidade da Marinha poderá converter até 40 toneladas de yellow cake por ano e, para as usinas Angra 1, 2 e 3, é preciso converter 500 toneladas do produto. Já os prédios que abrigam o reator e as turbinas são parte do Laboratório de Geração Nucleo-Elétrica (Labgene) que, na verdade, é um protótipo em terra do submarino nuclear, onde serão feitos os testes.

O reator nuclear ali desenvolvido será o primeiro totalmente construído no Brasil. Ele é cem vezes menor do que o reator da usina Angra 2, por exemplo. “Estamos construindo dentro do prédio uma espécie de charuto de aço não-resistente que simula o tamanho do submarino, para anteciparmos problemas na montagem do reator no submarino”, comentou o oficial da Marinha durante a palestra na USP.

Propulsão elétrica com energia nuclear

A energia que o reator vai produzir servirá para movimentar o submarino e alimentar sistema de iluminação, sistemas eletrônicos e outros utilizados pela embarcação. Os principais equipamentos para sua construção foram adquiridos ao longo dos anos.

Apesar do nome, o submarino brasileiro não usará armamento nuclear. Já o motor em si, será elétrico – “O primeiro a ser testado será um motor francês [fornecido pela empresa francesa Jeumont], parte da nossa parceria com a França. Mas queremos desenvolver o motor também no Brasil e já temos dois parceiros potenciais, a Vale Soluções em Energia e a Weg”, afirmou Pagano. Há outros parceiros privados no projeto, como a Odebrecht, que está entrando no segmento de Defesa e vai participar da construção do estaleiro em conjunto com a francesa DCNS; a Jaraguá, a estatal Nuclep, Smar, Bardella, entre outras.

Pagano afirmou ainda que o grupo de P&D da Marinha que fica na base situada na Ilha do Governador (RJ) não trabalha com tecnologias nucleares. Os técnicos estão discutindo como os sistemas relacionados ao reator serão desenvolvidos. “A ideia é fazer isso com empresas, ter tecnologia desenvolvida em parceria e comercializada depois [tecnologia dual, usada no setor de Defesa, mas com potencial de aplicação na área civil]”, disse. Mas ele lembrou que muitas das empresas que já forneceram tecnologia para o programa nuclear da Marinha desapareceram. “As empresas precisam de fluxo de encomendas, elas tentam dar um caráter dual, mas nem sempre é possível”, apontou.

Ele lembrou, ainda, que é comum o governo dos EUA encomendarem novos submarinos mesmo que sua Marinha não esteja precisando. Isso é feito apenas para preservar o conhecimento adquirido pelas empresas no desenvolvimento de tecnologia para o setor. “Imagina, no Brasil, se a gente fizer isso. O arcabouço legal é diferente”, acrescentou.

Ele contou que a Marinha fez uma licitação, certa vez, para fornecimento de ligas de alumínio. A empresa vencedora colocou um preço bastante abaixo do mercado, garantindo que atenderia as especificações técnicas pedidas. Por vencer a licitação, já que ofereceu o menor preço, a empresa foi contratada para o fornecimento. A empresa tentou trazer o alumínio da China e não conseguiu porque não atendia as especificações, e não há na lei brasileira nada para tratar dessa situação. “A Lei de Licitação não serve bem para essa área de P&D”, opinou.

Submarinos brasileiros

O programa de construção de submarinos no Brasil começou em 1983, a partir de uma parceria com a Alemanha, mas que não previa transferência de tecnologia nem a construção de submarinos nucleares. Pelo acordo, um submarino foi totalmente feito na Alemanha e os outros três no Brasil, mas o projeto foi todo europeu, sem participação de técnicos nacionais.

“Entre a década de 1990 e 2007, vivemos um período de orçamento vegetativo, que era suficiente para manter o que o Brasil já tinha [em relação ao programa de submarino e às pesquisas nucleares]. Mas foram anos difíceis, em que a crise impactou o volume de investimento público e privado”, apontou o contra-almirante Pagano Júnior.

Segundo ele, apenas a partir de 2008, quando surgiu o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub) e foi assinada a parceria com os franceses, o governo passou a manter um padrão mais estável na execução orçamentária, sem os contingenciamentos de recursos, frequentes no período anterior.

Contudo, em 2011, diante da necessidade de corte no orçamento, a presidente Dilma Rousseff reduziu a verba disponível para o Prosub de R$ 2,1 bilhões para R$ 1,5 bilhão – mas, até o momento, o corte não levou a mudanças substanciais no cronograma do projeto. O contrato com a França no âmbito do Prosub prevê multas para o caso de atraso do Brasil no repasse do dinheiro para que os franceses executem sua parte do projeto. Os investimentos para todo o Prosub são de € 6,7 bilhões (R$ 15,8 bilhões).

Por que um submarino nuclear?

No seminário apresentado na USP, o contra-almirante justificou a opção da Marinha em ter um submarino nuclear. O primeiro é estratégico: aproveitar que o Brasil tem reserva de urânio e sabe fazer o processo de enriquecimento. O segundo aspecto é puramente técnico: o submarino convencional, movido por motor a diesel, fica muito menos tempo submerso do que o nuclear e é menos veloz.

Quando submerge, um submarino convencional precisa desligar motor para não gerar gases de exaustão, o que faria uma contrapressão na coluna de água marítima e impediria a submersão. Os convencionais são mantidos por baterias quando submersos, e o tempo que podem permanecer escondidos embaixo da água é o da duração das baterias. “O tempo de submersão é a proteção do submarino, que não tem muitos mecanismos de defesa. Ele precisa estar escondido, na superfície é um alvo vulnerável”, explicou. Submarinos nucleares podem ficar meses submersos – o limite é o estresse da tripulação. Também atingem velocidades superiores em relação aos submarinos convencionais, o que é vantajoso em situações de fuga ou perseguição. O primeiro submarino nuclear do mundo a entrar em operação foi o Nautilus, em 1954, construído pelos EUA.

Hoje, esse tipo de embarcação é produzido pelos Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França. A Índia chegou a lançar um submarino nuclear em 2009, o INS Arihant, mas circularam informações extraoficiais, na época, sobre o submarino apresentado não ter sido equipado com o reator nuclear. Em agosto de 2010, a Rússia entregou à Índia o submarino nuclear Nerpa, em regime de aluguel, com opção de compra por parte dos indianos. O Nerpa sofreu um acidente em novembro de 2008, quando 20 pessoas morreram e outras 41 ficaram feridas depois da ativação do sistema de extinção de incêndios, durante testes de navegação.

Fonte: http://www.inovacaotecnologica.com.br

Autor: Dakir Larara

Geógrafo, Professor universitário, pai das lindas Dandara e da recém chegada Anahí e, claro, marido da amada Maíra.

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