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Review atrasado: Tropa de Elite 2

2 Comentários

Olá pessoas!!! Vou me meter a analista de cinema super júnior, hehehe. Nesta minha primeira tentativa, vou tecer algumas reflexões sobre o filme Tropa de Elite 2. Assisti o filme no início do ano e já tinha escrito algumas coisas sobre ele já faz algum tempo. Mas sabe lá porque, só resolvi publicar agora. Por favor, só não vale rir, ok?!

Taí então…

Assisti Tropa de Elite 2 nesta semana e resolvi fazer alguns comentários sobre o que achei do filme, muito também pela “pressão” (hehehe)  do amigo e aluno Marco Contreiras, da disciplina de Organização do Espaço Geográfico Mundial, disciplina que ministrei no semestre passado.

Ainda que Tropa de Elite seja um filme inequivocamente eficiente, há algo além de seu sucesso e do verdadeiro modismo que inspirou através das repetições de vários de seus diálogos. Construindo o capitão Nascimento como um ícone da luta contra o crime, esta obra de José Padilha apertou um dos muitos calos da sociedade brasileira que, cheia de viver sob o medo constante frente aos criminosos, encarou as ações violentas de Nascimento quase como uma catarse, além de um símbolo da reação dualista da construção do imaginário ocidental entre o bem contra o mal. Desta forma, o ato final de Tropa de Elite servia como uma espécie de espelho erguido diante do espectador, que era, por conseguinte, obrigado a avaliar seus próprios sentimentos sobre a execução sumária do traficante Baiano.

Tropa de Elite 2 (TE2) traz o agora coronel Nascimento (Wagner Moura) enfrentando, como enfatiza o subtítulo do longa – um outro inimigo –, e como no primeiro, também pressiona outro ponto nevrálgico da sociedade brasileira – a política. Após comandar uma operação mal sucedida em Bangu I que resulta num massacre, Nascimento se torna um problema para o governador do Rio de Janeiro; se  por um lado é exonerado para acalmar a opinião pública, por outro é promovido a subsecretário de segurança para respeitar a vontade de uma elite estúpida que, formadora de opinião e lixando-se para os direitos humanos alheios, aplaude de pé (literalmente, como mostra a cena no restaurante) as atitudes do sujeito.

Depois de aparelhar o BOPE e transformá-lo numa verdadeira máquina de guerra (como o próprio Nascimento diz ao longo de sua narrativa), a personagem de Moura interrompe o tráfico na cidade, mas sem saber, ocasiona o surgimento/ascensão de uma milícia que é originada da própria PM que, explorando a ausência de poder, aterroriza as favelas, assediando seus habitantes, transformando-as também em verdadeiros currais eleitorais.

Neste aspecto, algumas perguntas que o longa TE2 insiste apropriadamente em apresentar são: 1) Afinal, figuras como Nascimento e Mathias são um mal necessário? 2) Vivemos sim numa guerra urbana quase sem fim, mas a escalada da violência promovida pela polícia seria algo construtivo (resposta: violência, por definição, nunca é algo construtivo) ou apenas serviria para piorar o contexto turbulento que vivemos? Se acrescentarmos a isto a inoperância/ausência do Estado e os interesses obscuros da mídia (um dado momento do filme, um jornal se recusa a publicar uma matéria para não prejudicar o governo “amigo/parceiro”), a impressão final é a de que estamos realmente nas mãos de indivíduos incapazes e/ou corrompidos até a alma que se preocupam apenas com seus próprios e imediatos objetivos.

Todavia, como também o roteiro nos coloca, a solução não reside numa revolta adolescente do tipo “Nenhum político presta! Macaco Tião pra Vereador!”, já que, queiramos ou não, uma das pouquíssimas saídas que nos resta passa, invariavelmente, pela própria política; e que existem bons políticos merecedores de nossos votos e dispostos a lutar pelos interesses da população não restam dúvidas, basta buscarmos informações confiáveis antes de nos colocarmos diante da urna. Penso que esta é uma das provocações que o longa nos faz, aliás, que o próprio protagonista eventualmente parece aprender em TE2, o que talvez se estabeleça como seu grande arco dramático.

Contando com sua parcela de frases marcantes que certamente serão repetidas por muito tempo pelos fãs do filme (uma das minhas favoritas é a cínica “Vamos dar saco de bombom pros vagabundos!”), TE2 talvez demonstre a coragem e a integridade dos realizadores na abordagem de uma questão tão complicada ao colocar nos lábios do coronel Nascimento uma fala breve, mas capaz de despertar uma polêmica infindável que merece, no entanto, ganhar as ruas: “A PM do Rio tem que acabar”. Se este é um diagnóstico apropriado, uma alternativa viável ou mesmo uma peça da solução (e vale lembrar sempre que um dos responsáveis pelo projeto e pelo argumento é o ex-BOPE Rodrigo Pimentel), é algo que só poderemos concluir através de um amplo debate, mas o fato de trazer uma afirmativa como esta em seu clímax é a prova suficiente de que, embora continuação de uma produção de sucesso, o filme tem aspirações muito mais nobres do que apenas o objetivo comercial e financeiro. Creio que longa é muito bem estruturado e toca em questões e problemas extremamente relevantes para a sociedade brasileira e merece, com certeza, ser apreciado e visto por todos nós.

Abraços

Dakir Larara

Autor: Dakir Larara

Geógrafo, Professor universitário, pai das lindas Dandara e da recém chegada Anahí e, claro, marido da amada Maíra.

2 pensamentos sobre “Review atrasado: Tropa de Elite 2

  1. “o espaço que, para o processo produtivo, une os homens, é o espaço que, por esse mesmo processo produtivo, os separa” (Snatos, Milton: Pensando o espaço do Homem).
    (qualquer semelhança com fatos reais e mera coincidência)

    Essa retórica de Milton Santos inspira, ilustra algum processo político que construiu essa desigualdade espacial no palco do filme desenrolado no Rio de Janeiro? Será que a construção de milícias, ou de campanhas políticas no espaço do morro é uma apropriação do espaço que une as pessoas? E esse mesmo processo produtivo, ou seria político cria um abismo de separação entre os homens? Poxa Milton as vezes você é complicado hehheh
    Valeu…

    • Putz… Cada questionamento que tu fazes hein Marco… “Mui amigo” hein?!?!?, HEHEHEHE.

      Mas sem dúvida: o sábio Mestre Milton Santos já dizia (e previa) que o processo econômico como um todo, gera diferentes formas de apropriação do espaço, no que se traduz por diferentes formas de organização dos territórios e distintas manifestações de territorialidades (nossa… me puxei nessa agora, hehehe).

      O filme expressa estes teus questionamentos, pois as chamadas comunidades nada mais são do que territórios de exclusão/resistência do processo de globalização.

      Como poder público abandonou e excluiu essas áreas das políticas de âmbito municipal, estadual e federal por longas décadas elas, obviamente, tiveram de se organizar aos trancos e barrancos, ou seja, do jeito delas. Anos depois, se dando conta dos problemas e conflitos e, sobretudo, das relações que se estabeleceram entre os territórios das favelas/comunidades com os territórios do asfalto, o poder público “resolveu” gerar políticas de intervenção/pacificação nestes locais. Só que essas relações das quais me referia anteriormente, são muito mais profundas: políticos, juízes, policiais, figurões da alta sociedade, traficantes, enfim, o SISTEMA, todos envolvidos num mosaico e emaranhado em que o grau de complexidade é elevadíssimo.

      Sei eu… Acho que é por aí…

      Abração e valeu pela participação.

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