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FAQ do ciclone no Sudeste do Brasil, by MetSul Meteorologia

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Leia a atualização ao final do post!!

Interessante as peguntas e respostas que o meteorologista Luiz Fernando Nachtigall, membro da equipe da MetSul Meteorologia, fez sobre o ciclone que irá atuar na costa do sudeste brasileiro. Vale a pena dar uma lida, pois os caras da MetSul são feras. Espero que curtam o post.

 

Haverá a formação de um ciclone tropical junto à costa brasileira ? Pode este sistema virar até um furacão?

A resposta é provavelmente sim para a primeira pergunta e um meramente talvez para o segundo questionamento. Uma depressão tropical que foi designada como de interesse (Invest 90Q) pelo Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos e a Marinha norte-americana atua na costa do Espírito Santo desde o final da semana passada, tendo sido responsável por chuva intensa no território capixaba durante o fim de semana.

Durante as últimas horas, como era esperado, este sistema de baixa pressão começou a se intensificar e organizar sobre o Atlântico entre os litorais do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. Com base em diferentes simulações numéricas, a tendência é que esse sistema se intensifique ainda mais em mar aberto entre hoje e amanhã, mais distante da costa, podendo ganhar características, pelo menos, de uma tempestade tropical (ciclone tropical com vento de 65 a 120 km/h). Na madrugada chegaram a ser registradas rajadas de vento de até 80 km/h na estação do Inmet em Abrolhos, no litoral da Bahia, mas associadas a temporal provocado pela convecção que havia na área em razão do sistema de baixa na costa do Espírito Santo.

A possibilidade deste sistema se converter em um furacão no Atlântico Sul não pode ser afastada. A tendência de lento deslocamento e sobre águas com temperatura superficial elevada (27ºC a 29ºC) permitirá que este sistema receba energia suficiente para maior intensificação, o que pode levá-lo, eventualmente, a uma condição de furacão. Nem todos os modelos sugerem a possibilidade de um sistema desta natureza. O modelo Europeu, por exemplo, indica uma baixa sem maior relevância no Atlântico Sul.

O modelo mais agressivo segue sendo o americano GFDL (Geophysical Fluid Dynamics Laboratory), concebido para prognósticos de ciclones tropicais, e um dos principais a ser operado pela Meteorologia dos Estados Unidos quando da previsão de furacões. Esta simulação, em particular, indica que poderia haver a formação sim de um furacão aqui no Atlântico Sul. Veja a projeção deste modelo para o sistema no decorrer da semana.

Se um furacão vier a se formar no Atlântico Sul, qual seria a sua intensidade ? É possível de projetar a força do vento em alto mar para este sistema?

Prognósticos de ciclones tropicais são extremamente complexos mesmo nos países com Meteorologia estruturada para este tipo de previsão. Isso porque este tipo de fenômeno é não raro surpreendente. Um ciclone tropical pode passar de uma tempestade tropical para um furacão categoria 3 em questão de poucas horas. Isso já ocorreu muitas vezes e, em alguns casos, até recentes, acabou surpreendendo e frustrando prognósticos do centro de ciclones tropicais norte-americano que é o mais avançado do mundo. Prever intensidade de um fenômeno desta natureza, portanto, não é fácil. No caso do Atlântico Sul, é ainda mais difícil. Quando um ciclone tropical se forma no Atlântico Norte existe um pacote de “guidance” (modelos) muito vasto (exemplo abaixo) fornecendo projeções de intensidade para determinado sistema, o que não ocorre aqui no Atlântico Sul.

Numa da mais extremadas saídas do fim de semana, o modelo GFDL chegou a sugerir (ver abaixo) um furacão no limite das categorias 2 e 3 na escala Saffir-Simpson no Atlântico Sul nesta semana com pressão de 960 hPa e vento ao redor de 200 km/h, solução esta que não tem sustentação em vários modelos globais. Uma das nossas curiosidades na MetSul é se o avanço de ar mais frio pela costa do Sul do Brasil, antecedido por um sistema frontal, logo com maior divergência de vento, não pode comprometer uma maior organização e intensificação do ciclone, uma vez em mar aberto.

Há risco para a população se este sistema vier a se formar ? Caso negativo, afinal, por que tanto interesse por algo que estará em mar aberto?

Todos os indicativos de modelagem numérica são de que este sistema atuará em alto mar e se afastará da costa brasileira no decorrer da semana sem oferecer perigo à população. A natureza não raro surpreendente e severa deste tipo de fenômeno exige, contudo, um monitoramento muito atento. Mesmo se este sistema permanecer o tempo todo em alto mar é de enorme interesse porque se trata de um fenômeno raro na nossa climatologia do Atlântico Sul. Furacão, por exemplo, só teve um até hoje documentado que foi o Catarina de 2004.

E o tal do nome ? Haverá um nome para identificar este tão comentado ciclone tropical ? Existe uma lista no Brasil como há nos Estados Unidos?

A Organização Meteorológica Mundial definiu diferentes centros de área para previsão e monitoramento de ciclones tropicais ao redor do mundo. Estes centros definem nomes a fim de identificar as tempestades. Não há centro designado para o Atlântico Sul, logo não há órgão meteorológico algum credenciado na América do Sul para nomear ciclones na nossa costa. Nas últimas horas comentou-se em canais da mídia que este possível sistema na costa brasileira receberia o nome Arani, designação do idioma tupi-guarani, e que já existiria no Brasil uma lista de nomes pronta para identificar ciclones tropicais, isto é tempestades tropicais e furacões, apesar que ciclones subtropicais também são nomeados no Atlântico Norte. A MetSul Meteorologia conseguiu apurar que a esmagadora maioria dos meteorologistas de órgãos públicos do Brasil desconhece a existência de tal lista. No ano passado, a Meteorologia da Marinha sugeriu e esboçou lista de nomes em reunião com o INPE, Instituto Nacional de Meteorologia e Decea (Aeronáutica), mas a relação jamais foi formalizada na forma de um documento conjunto. O comando do setor de Meteorologia da Marinha disse à MetSul que dispõe da lista e esta somente poderá ser tornada pública quando for remetida para o Instituto Nacional de Meteorologia, o que não tem data prevista. No site do Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos, a lista de nome para o Atlântico Norte está disponível para 2011 e os próximos anos. Na Alemanha, onde ciclones mesmo extratropicais recebem nomenclatura, a lista também se encontra disponível e a população em geral é convidada pela Meteorologia a sugerir nomes.

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Atualização (14/3 – 15h58min) – Claramente está configurada uma depressão tropical na costa do Espírito Santo. O aumento da convecção (flare of convection no jargão meteorológico em Inglês) ao redor do centro da baixa sugere provável intensificação do sistema, o que se espera nas próximas 24 a 36 horas, quando a baixa pressão pode evoluir para uma condição de tempestade tropical. A partir deste ponto, o cenário se torna mais complexo. Possibilidade que sobressai, a partir da análise feita pela  MetSul dos modelos deste começo de tarde é que, ao evoluir para o Leste, o sistema encontre um ramo frontal com ar mais frio logo ao Sul, eventualmente fundindo-se com a frente, o que colocaria o sistema numa transição de tropical para subtropical. A interação ou não com o sistema frontal devido ao avanço de ar frio pelo Atlântico Sul, é que determinará se o ciclone tropical terá potencial ou não de sustentar intensificação no Atlântico Sul ainda com características tropicais e não híbridas.

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Atualização – (14/3 – 22h20min) – Imagens de satélite do fim da tarde e do começo desta noite desta segunda-feira mostravam o sistema tropical no litoral do Rio de Janeiro e do Espírito Santo muito mais organizado do que no começo do dia com notável intensificação, cenário que era antecipado.

Imagens de satélite mostram nitidamente a presença de um CDO (central dense overcast), o que vem a ser na imagem o aglomerado quase circular de nuvens carregadas que acompanha tradicionalmente os ciclones tropicais. É nesta área chamada de CDO que se forma um olho nos ciclones mais intensos, o que não é o caso no momento deste. Outro aspecto um tanto importante na imagem é o aspecto circular da nebulosidade radial à área de baixa pressão atmosférica, comum em ciclones tropicais e que não se observa em ciclones de natureza extratropical.

Ademais, este sistema no litoral do Sudeste se dá independente de sistema frontal, quando sistemas extratropicais em regra estão associados a frentes. Também são observados raios ao redor do seu centro, pelas imagens dos sensores de descaras elétricas, o que é normal visto em ciclones tropicais e condição comumente ausente de ciclones extratropicais de centro frio.

Finalmente, ciclones extratropicais não se formam dentro dos trópicos, o que explica o prefixo “extra”. Um outro detalhe marcante na imagem é a presença de espirais de nuvens do tipo Cirrus em níveis altos da atmosfera (chamado de outflow), característico igualmente em ciclones tropicais. A Marinha do Brasil está definindo o sistema tão-somente como uma depressão subtropical, mas conforme o entendimento da equipe de meteorologistas da MetSul  a baixa pressão na costa do Sudeste adquiriu características de uma tempestade tropical. A evolução deste sistema em termos de organização e uma possível intensificação dependerá, como já dito anteriormente, da interação com uma frente fria e ar mais frio avançando pelo Sul do Brasil, o que pode fazer este sistema, agora tropical, evoluir para subtropical e posteriormente extratropical. Esta é, aliás, a tendência para o sistema à medida que ele se deslocar para Leste e Sudeste.

O NOAA (órgão de Meteorologia do governo dos Estados Unidos) iniciou ainda às 15 horas de hoje a monitorar o sistema por floater no seu site de satélites dedicados a ciclones tropicais, entretanto segue sem fazer monitoramento com dados de escala Dvorak e outras variáveis, como ocorreu com Anita em 2010, não indicando em nenhum página sua tratar-se o sistema de uma tempestade tropical, fenômeno que a MetSul entende estar presente na costa brasileira agora. Tempestades tropicais, como esta, devem receber nomes e a lista preparada pelos órgãos do governo federal prevê o nome Arani. Caso instituições federais não venham a nomear este sistema, ocasionalmente entendendo, em opinião diferente da nossa, que tal sistema não preencheu os requisitos necessários para sua nomenclatura, a MetSul não identificará esta tempestade com nenhum nome. Crucial reiterar, mais uma vez, que este sistema não oferece perigo para a área continental do nosso país e que os interesses a serem monitorados se encontram em mar aberto.

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Atualização 15/4 – (16h30min) – O ciclone tropical na costa do Sudeste segue se afastando lentamente do continente à medida que fica mais organizado e intenso no Atlântico Sul (foto abaixo). Na parte da manhã,  o NOAA, finalmente, começou a divulgar números T na escala de Dvorak para este sistema. O primeiro dado do início da manhã acusou T1.0, o que pela escala  corresponde a vento ao redor de 50 km/h.

O problema é que a escala Dvorak foi elaborada com bases em ciclones para as regiões (basins) do Atlântico Norte e do Pacífico, não para o Atlântico Sul, tanto que os números T têm correspondência diferente em intensidade para o Atlântico Norte e o Pacífico na numeração da escala Dvorkin (que é meramente estimativa a partir de observação por satélite e não baseada em dados de superfície).

A Metsul Acredita ser muito improvável que este sistema presente no Atlântico Sul, pela sua oganização e acima de tudo pela intensidade vista nas imagens de satélite, esteja apresentando vento somente de 45 a 50 km/h. Mais que isso, pela escala de Dvorak a pressão mínima central estaria acima de 1009 hPa. Chance quase nula que este ciclone tropical esteja com pressão central de 1009 hPa ou mais. O Galeão está com 1010 hPa e Vitória com 1009 hPa, muito na periferia do sistema e distantes algumas centenas de quilômetros do centro da baixa. Mesmo caso da plataforma P-20 da Petrobrás na costa do Rio com 1008hPa. Assim, altamente ilógico que este sistema no seu centro esteja com pressão tão alta quanto indicada no número T da escala de Dvorak informado pelo NOAA. Caso tivéssemos aqui voos de reconhecimento, como ocorre no Atlântico Norte, muito provavelmente a sonda indicaria pressão menor e vento mais forte que o estimado por satélite.

Autor: Dakir Larara

Geógrafo, Professor universitário, pai das lindas Dandara e da recém chegada Anahí e, claro, marido da amada Maíra.

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